Mensagens indicam que Vorcaro editava reportagens, derrubava textos e sugeria pautas ao Metrópoles

Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro revelam sua influência sobre conteúdos jornalísticos do portal Metrópoles, incluindo alterações em reportagens, sugestões de pautas e pedidos para impedir publicações.
Segundo reportagem do Estadão Conteúdo, publicada pelo Diário de Pernambuco nesta quinta-feira (15), a CEO do Metrópoles, Lilian Tahan, encaminhava textos ao então proprietário do Banco Master antes da publicação e atendia a solicitações feitas pelo empresário.
Os diálogos foram encontrados no celular de Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal durante as investigações sobre suspeitas de fraude de R$ 12 bilhões contra o sistema financeiro. As conversas também registram reuniões presenciais entre o banqueiro e a executiva, que intermediava encontros com o proprietário do portal, o ex-senador Luiz Estevão.
Um dos episódios ocorreu em 2 de abril de 2025, quando o Metrópoles preparava uma reportagem sobre rumores de que o BTG Pactual teria apresentado uma proposta de R$ 1 para adquirir ativos do Banco Master.
Vorcaro contestou a informação e encaminhou um desmentido. A jornalista respondeu que o conteúdo seria retirado. O banqueiro também orientou a maneira como a notícia deveria ser apresentada, defendendo que o texto apenas desmentisse a existência da proposta.
Horas depois, Tahan enviou o link da matéria publicada e afirmou que poderia realizar novas alterações. “Não publicarei sem nos falarmos”, escreveu a executiva.
Em 10 de abril, outra conversa envolveu uma reportagem que comparava os balanços do Banco de Brasília (BRB) e do Master. Após receber o rascunho, Vorcaro questionou os números relativos à carteira de crédito de sua instituição e sugeriu a inclusão de valores vinculados a fundos, apontando um total de R$ 52 bilhões. A mudança foi aceita.
No dia seguinte, a CEO encaminhou ao empresário uma reportagem sobre uma reunião dele com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Antes da publicação, perguntou se havia alguma observação e se colocou à disposição para fazer alterações.
As intervenções também atingiram informações sobre empresas relacionadas aos negócios do Master. Em 27 de maio, Tahan apresentou uma prévia de reportagem sobre a compra de ativos bilionários do banco pelo BTG Pactual, incluindo referências ao Hotel Fasano, Light, Pão de Açúcar e Hapvida.
Vorcaro pediu que a Hapvida fosse retirada do texto. A executiva concordou, e a reportagem foi publicada sem a referência à empresa.
Em julho, o empresário voltou a interferir, desta vez na manchete de uma reportagem sobre a entrega de documentos ao Banco Central para a conclusão da venda do Master ao BRB.
Vorcaro sugeriu substituir a abordagem sobre a etapa final da negociação por uma manchete indicando que o Banco Central poderia aprovar a operação nos dias seguintes. A alteração foi aceita pela jornalista.
Apesar da expectativa apresentada naquele momento, a operação de compra do Master pelo BRB acabou vetada pelo Banco Central em setembro de 2025. A instituição financeira de Vorcaro foi liquidada em novembro do mesmo ano.
Os diálogos também mostram pedidos relacionados à cobertura política do portal. O banqueiro solicitou que o Metrópoles reduzisse temporariamente o espaço destinado a Ricardo Cappelli (PSB), candidato ao Governo do Distrito Federal e crítico da negociação entre Master e BRB.
“Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, escreveu Vorcaro. Lilian Tahan respondeu: “Deixa comigo”.
Outro episódio, registrado em 22 de outubro de 2025, envolveu uma reportagem sobre a relação financeira entre a Oncoclínicas e o Banco Master.
A executiva encaminhou uma prévia do texto, que tratava da possibilidade de conversão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) em ações, e perguntou se a publicação causaria algum incômodo ao empresário.
Vorcaro respondeu que sim, contestou as informações divulgadas pela Oncoclínicas e afirmou que havia erros no conteúdo. Diante da manifestação, Tahan decidiu não publicar a reportagem.
As mensagens também revelaram contatos do empresário com Frederic Kachar, então CEO da Editora Globo. O executivo foi demitido nesta quinta-feira (15).
Procurada pela reportagem do Estadão Conteúdo, Lilian Tahan não havia se manifestado até a publicação da notícia.
Fonte: Estadão Conteúdo/Diário de Pernambuco
Foto: Divulgação/Banco Master
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