Debate na Globo tem troca de acusações entre Lula e Flávio, pedido de desculpas e embates sobre propostas

O último debate entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) antes do segundo turno das eleições presidenciais foi marcado por acusações pessoais, cobranças sobre políticas sociais e discussões envolvendo o endividamento das famílias e o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). O encontro, realizado na noite dessa sexta-feira (23), na TV Globo, teve como um dos principais episódios um pedido de desculpas do senador após fazer referência à deficiência física do presidente.
A discussão começou quando Flávio afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com nove dedos”, em uma crítica à política econômica do governo. O presidente perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho, quando atuava como torneiro mecânico, aos 17 anos.
Lula reagiu à declaração, lembrou sua trajetória como trabalhador e relacionou o episódio aos acidentes que atingem empregados em diferentes atividades profissionais. O presidente também chamou o adversário de miliciano e exigiu uma retratação.
“Você vai ter que pedir desculpa”, cobrou Lula, argumentando que a referência atingia não apenas sua condição pessoal, mas também trabalhadores que sofreram acidentes.
Na sequência, Flávio pediu desculpas ao presidente, afirmando que não tinha a intenção de ofendê-lo.
“Peço desculpa de verdade”, declarou o senador.
Apesar da retratação, o candidato do PL questionou se Lula pediria desculpas à população em situação de rua, às mulheres vítimas de violência e aos brasileiros que enfrentam dificuldades financeiras. Flávio também repudiou o fato de ter sido chamado de miliciano.
Durante a discussão, o senador afirmou que o número de pessoas em situação de rua havia dobrado no atual governo. Entretanto, dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua apontam crescimento de 55% entre 2022 e dezembro de 2025, quando foram contabilizadas aproximadamente 365,8 mil pessoas nessa condição.
Pesquisadores ressaltam que a ampliação dos registros pode estar relacionada também a mudanças metodológicas, à busca ativa e à inclusão de pessoas vulneráveis nos cadastros sociais. Dessa forma, o aumento registrado não pode ser interpretado integralmente como crescimento de novos casos.
Outro momento do debate envolveu os direitos das mulheres. Lula cobrou explicações de Flávio sobre seu voto contrário à ampliação da licença-maternidade, quando exercia o mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro.
O senador reconheceu a decisão e afirmou que, na época, acreditava que a ampliação do período de afastamento poderia dificultar a contratação de mulheres pelas empresas.
“Eu estava errado”, admitiu Flávio, acrescentando que sua percepção mudou depois do casamento e do nascimento de suas duas filhas.
O candidato afirmou que atualmente votaria de maneira diferente e defendeu a importância da convivência entre mães e filhos, inclusive por períodos superiores a 180 dias.
Lula criticou a justificativa e argumentou que o adversário havia perdido a oportunidade de apoiar a mudança quando exerceu o mandato parlamentar.
Na mesma discussão, o presidente recuperou publicações antigas em que Flávio se referia ao Bolsa Família como “bolsa-farelo”. Lula considerou a expressão desrespeitosa com a população de baixa renda.
Flávio respondeu que pretende manter e ampliar os programas sociais caso seja eleito, incluindo o Bolsa Família. O senador também criticou a política de reajuste dos benefícios e questionou a atuação do governo federal no combate à pobreza.
ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS
O endividamento dos brasileiros também provocou divergências entre os candidatos. Flávio responsabilizou a condução da economia pelo aumento das dificuldades financeiras das famílias e citou a dívida pública, mencionando um valor próximo de R$ 11 trilhões.
O número apresentado pelo senador fazia referência à Dívida Bruta do Governo Geral, indicador acompanhado pelo Banco Central.
Flávio defendeu a criação de um mecanismo para permitir que a Caixa Econômica Federal compre dívidas de consumidores junto aos bancos e ofereça novas condições de refinanciamento.
O candidato afirmou que a proposta permitiria reduzir o peso dos juros e ampliar a capacidade de pagamento das famílias endividadas.
Lula respondeu que medidas de renegociação já haviam sido adotadas em seu governo e afirmou que uma nova iniciativa havia sido encaminhada ao Senado.
O presidente mencionou uma operação de aproximadamente R$ 15 bilhões, envolvendo 4,5 milhões de pessoas, e acusou o adversário de apresentar uma proposta semelhante àquela defendida por sua administração.
Lula também relacionou o endividamento à política de juros do Banco Central e defendeu o crescimento da economia como parte da solução para as dificuldades financeiras da população.
SUS E PANDEMIA
A saúde pública foi outro tema de confronto. Lula questionou declarações atribuídas a um integrante da equipe econômica de Flávio sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde.
O presidente cobrou esclarecimentos sobre a disposição do adversário de ampliar os investimentos no SUS e retomou críticas à condução da pandemia de covid-19 durante o governo de Jair Bolsonaro.
Lula atribuiu ao comportamento do ex-presidente parte das dificuldades enfrentadas pelo país durante a crise sanitária e mencionou suas declarações sobre a vacinação.
Na avaliação do presidente, a atuação do SUS foi fundamental para evitar um número ainda maior de mortes durante a pandemia.
Flávio negou que pretenda reduzir os investimentos no sistema público e afirmou que sua proposta é ampliar os recursos destinados ao atendimento da população.
O senador também criticou as filas para consultas, exames e procedimentos, além da situação financeira das Santas Casas e das unidades conveniadas ao SUS.
Como proposta, Flávio defendeu a revisão dos valores pagos pelos procedimentos realizados na rede pública e conveniada.
O candidato afirmou ainda que pretende concentrar cortes de despesas na burocracia administrativa e no que classificou como irregularidades e desperdícios de recursos públicos, além de defender a redução de impostos.
O debate ocorreu a dois dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para este domingo (25), quando Lula e Flávio Bolsonaro disputarão a Presidência da República.
Fonte: Agência Brasil
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
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