Abstenção de 33 milhões entra na disputa do 2º turno; especialistas avaliam desafio de Lula para virar eleição

Os 33,4 milhões de eleitores que não votaram no primeiro turno passaram a integrar as estratégias de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a votação de 25 de outubro. Especialistas apontam que a diferença de 2,2 milhões de votos mantém a disputa aberta, mas destacam obstáculos para uma virada do petista.
Lula terminou o primeiro turno 1,9 ponto percentual atrás de Flávio, a menor distância entre os dois primeiros colocados em uma eleição presidencial desde a retomada das eleições diretas, em 1989. Desde a redemocratização, porém, nenhum candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno conseguiu vencer a disputa presidencial na etapa seguinte.
Para o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o histórico precisa ser analisado junto com a diferença reduzida registrada neste ano.
“Embora nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena”, avaliou.
O cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral, considera a reversão difícil, mas não impossível. Para ele, um dos principais desafios está no pouco tempo disponível para que a campanha de Lula alcance segmentos que não conseguiu mobilizar no primeiro turno.
A abstenção aparece nesse cenário como um dos principais grupos disputados. No primeiro turno, 33,4 milhões de pessoas deixaram de comparecer às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto.
Creomar observa que esse contingente representa um volume expressivo de votos disponíveis para as duas candidaturas. A cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Unirio e da Fundação Getulio Vargas (FGV), pondera, entretanto, que eleitores que tradicionalmente se abstêm não são necessariamente fáceis de mobilizar durante a campanha.
O histórico recente reforça a avaliação. Em 2022, a abstenção caiu pouco entre as duas etapas da eleição presidencial: de 32,7 milhões de eleitores no primeiro turno, ou 20,95%, para 32,2 milhões, equivalente a 20,59%, no segundo.
Outro movimento acompanhado pelas campanhas é o destino dos votos dados aos candidatos que ficaram fora da disputa.
Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) declararam apoio a Flávio Bolsonaro. Terceiro colocado no primeiro turno, com mais de 3,4 milhões de votos, Cury anunciou sua posição após Flávio assumir compromissos por escrito com propostas apresentadas pelo escritor durante a campanha.
Renan Santos (Missão), por sua vez, afirmou que não apoiará nenhum dos dois candidatos no segundo turno.
Os especialistas ouvidos pela reportagem divergem sobre como os eleitores dos candidatos eliminados poderão se comportar. O apoio formal de uma liderança não significa transferência automática dos votos recebidos no primeiro turno, e as duas campanhas trabalham para conquistar esses segmentos.
O resultado das eleições legislativas também aparece nas análises. O PL elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados e ampliou sua representação no Senado, movimento apontado pelos especialistas como um fator político relevante na disputa.
Para Lula, a estratégia passa por reduzir a abstenção, reconquistar eleitores que não repetiram o voto dado ao petista em eleições anteriores e buscar parte dos votos destinados aos candidatos eliminados.
Flávio, por sua vez, tenta ampliar a vantagem obtida no primeiro turno, incorporar eleitores dos antigos adversários e também disputar o contingente que não compareceu às urnas.
O segundo turno da eleição presidencial será realizado em 25 de outubro.
Fonte: Diário de Pernambuco
Foto: Antonio Augusto/TSE
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