“Quem é Osmarzinho?”: jingle de 2016 reaparece, viraliza e vira caso de Justiça

Música criada durante a eleição municipal de Cocal dos Alves voltou a circular como meme nacional; em 2016, conteúdo provocou reação pública da campanha e disputa na Justiça Eleitoral
“Quem é? Quem é?”. Se você passou pelas redes sociais nos últimos dias, há uma boa chance de o algoritmo já ter apresentado Osmarzinho. Um jingle eleitoral criado há dez anos contra o então candidato à Prefeitura de Cocal dos Alves, no Piauí, voltou a circular e transformou uma disputa municipal de 2016 em um dos memes políticos de 2026.
Osmarzinho é Osmar de Sousa Vieira, de 57 anos, comerciante e ex-prefeito de Cocal dos Alves, município com pouco mais de 6 mil habitantes. Ele governou a cidade entre 2017 e 2024, após vencer duas eleições consecutivas.
Foi justamente durante a primeira campanha, em 2016, que adversários criaram o jingle que agora ganhou alcance nacional. Em ritmo acelerado de forró e axé, a música utiliza perguntas e respostas para apresentar uma série de acusações contra Osmarzinho e integrantes de sua família.
Dez anos depois, o contexto eleitoral original praticamente desapareceu das publicações. O áudio passou a acompanhar memes e vídeos nas redes sociais, despertando a curiosidade de milhares de usuários sobre quem seria o personagem citado repetidamente na música.
E não, o jingle não foi criado por inteligência artificial. A música realmente circulou pelas ruas de Cocal dos Alves durante a campanha eleitoral de 2016.
Na época, porém, a recepção foi bem diferente do tom de humor que domina as redes hoje. Uma pessoa que integrou a campanha de Osmarzinho relatou posteriormente que o episódio foi considerado “muito traumático” pelo grupo político.
Segundo esse relato, a música era reproduzida em carros de som pelas localidades do município, levando a campanha de Osmarzinho a organizar uma resposta pública. Veículos também passaram a circular pelas ruas com mensagens afirmando que as acusações eram falsas e caluniosas.
A disputa chegou à Justiça Eleitoral. Em um dos episódios relatados, um motorista responsável por reproduzir a resposta da campanha teria passado com o volume muito baixo. A situação foi levada ao Judiciário, e houve determinação para que o carro voltasse a circular com o áudio em volume adequado.
Ou seja, o que em 2026 virou meme e piada nacional, em 2016 foi tratado como arma de campanha e provocou reação direta dos atingidos.
Jingle não impediu vitória nas urnas
Apesar da ofensiva dos adversários, Osmarzinho venceu aquela eleição. Ele recebeu 51,73% dos votos válidos, contra 48,27% de Ivan (PDT), uma diferença de apenas 151 votos.
Quatro anos depois, Osmar conquistou a reeleição e permaneceu à frente da prefeitura até dezembro de 2024.
O ex-prefeito não disputa as eleições de 2026, mas sua família continua presente na política. O sobrinho Wodson Vieira (PT) venceu a eleição municipal de 2024, com 70,10% dos votos válidos, e atualmente administra Cocal dos Alves.
O irmão de Osmarzinho, Rubens Vieira (PT), é deputado estadual e disputa a reeleição neste ano.
Acusações do jingle não devem ser tratadas como fatos
A música faz diferentes acusações contra Osmarzinho e familiares, envolvendo desde supostos desvios de recursos públicos até episódios da vida pessoal.
A viralização, porém, exige uma distinção importante: as afirmações feitas no jingle nasceram como material de uma disputa eleitoral e não podem ser tratadas como fatos comprovados apenas porque aparecem na letra.
Um dos episódios mencionados envolve um atropelamento ocorrido quando Osmarzinho era jovem, que resultou na morte de uma criança. Segundo informações publicadas sobre o caso, tratou-se de um episódio fortuito, com prestação de socorro.
Separadamente, existe uma investigação mais recente relacionada à gestão do ex-prefeito. O Ministério Público Federal instaurou, em novembro de 2025, um inquérito civil para apurar possíveis irregularidades em informações sobre matrículas da rede municipal inseridas em sistemas do Inep e do Ministério da Educação referentes a 2023.
A apuração investiga se o número de estudantes matriculados em tempo integral teria sido artificialmente elevado, o que poderia ter impacto nos repasses do Fundeb ao município.
A existência do inquérito não significa comprovação de irregularidade e também não confirma as acusações feitas no jingle de 2016.
Viralização foi parar na Justiça
O que começou como uma música de campanha municipal e reapareceu como meme nacional acabou chegando novamente ao Judiciário.
A juíza Elvanice Pereira de Sousa Frota Gomes, da 4ª Vara Cível da Comarca de Teresina, determinou que publicações indicadas por Osmarzinho no processo sejam retiradas do Facebook, Instagram e TikTok.
A decisão alcança a Meta, responsável pelo Facebook e Instagram, e a ByteDance Brasil, responsável pelo TikTok. As empresas também devem impedir a reutilização do áudio nas publicações abrangidas pela determinação.
Foi estabelecido prazo de 24 horas após a intimação para cumprimento, com multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento.
Uma década depois de não conseguir impedir Osmarzinho de chegar à prefeitura, o jingle encontrou um segundo turno que ninguém previa: o das redes sociais. Desta vez, porém, a disputa saiu dos carros de som de uma cidade de 6 mil habitantes e chegou ao feed do país inteiro.
Fontes: G1 Piauí, Congresso em Foco e Hugo Gloss
Imagem: Reprodução
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