Lideranças evangélicas se distanciam do bolsonarismo após derrota nas urnas e carta de Flávio

Lideranças evangélicas que mantiveram proximidade com o bolsonarismo passaram a adotar uma postura de distanciamento do grupo político de Flávio Bolsonaro (PL) após a derrota do senador para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais. O movimento ganhou força com a divulgação de uma carta na qual o candidato derrotado contestou o resultado das urnas e se apresentou inicialmente como presidente eleito.
Segundo reportagem de O Globo publicada nesta terça-feira (3), representantes de igrejas como a Universal do Reino de Deus e as Assembleias de Deus têm demonstrado resistência à estratégia adotada por Flávio depois do segundo turno, especialmente diante de sua saída do Brasil para os Estados Unidos.
O posicionamento representa uma mudança em relação à campanha eleitoral. Embora parte dessas lideranças tenha mantido distância da disputa no primeiro turno, houve uma aproximação com Flávio na etapa final da eleição.
Entre os religiosos que se manifestaram está o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal. Em uma pregação realizada no próprio dia 25 de outubro, antes da divulgação do resultado eleitoral, ele criticou o lema “Deus, Pátria e Família”, associado ao bolsonarismo.
“Eu não aprovo aquela teoria ‘Deus, pátria e família’. Primeiro Deus, segundo a família, e terceiro o Estado, ou o que mais que queira ser”, declarou.
A manifestação ganhou repercussão nos dias seguintes à eleição. Diferentemente de 2022, quando apoiou Jair Bolsonaro, a Igreja Universal não declarou apoio oficial a nenhum dos dois candidatos à Presidência em 2026.
Outro sinal de divergência ocorreu com o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, um dos principais aliados da família Bolsonaro.
Em mensagens privadas divulgadas pela imprensa, Malafaia criticou a atuação dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro e a carta publicada por Flávio.
“Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige”, escreveu.
Apesar das críticas, Malafaia não rompeu com o senador. O pastor afirmou que considera correta sua saída do Brasil e manteve a avaliação de que Flávio sofre perseguição política.
Reconhecimento da derrota
Entre outras lideranças religiosas, a reação foi de reconhecimento do resultado das urnas.
O bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, igreja de Brasília onde Flávio Bolsonaro foi batizado, publicou uma mensagem defendendo o encerramento da disputa eleitoral.
“As eleições terminaram. Não tem terceiro turno. Vida que segue!”, escreveu.
Abner Ferreira, da Assembleia de Deus de Madureira, também defendeu maturidade e respeito à decisão dos eleitores. Já César Augusto, da Igreja Fonte da Vida, pediu que o país superasse a disputa eleitoral e afirmou que seguiria orando pelo Brasil e pelo governo.
As manifestações mostram diferenças entre lideranças que apoiaram Flávio. Parte delas mantém posições políticas conservadoras, mas rejeita a estratégia de contestação do resultado eleitoral.
Carta e fuga para os Estados Unidos
O distanciamento ganhou dimensão após Flávio Bolsonaro divulgar, na quarta-feira (28), uma carta nos Estados Unidos em que se apresentava como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
Pouco depois, o senador modificou o documento e passou a se identificar como “líder do Brasil”. Na publicação, também afirmou que pretende comandar a oposição a partir do exterior.
Flávio havia deixado o país após a derrota eleitoral, apesar de uma decisão judicial que determinava a entrega de seus passaportes.
É importante destacar que as acusações de fraude nas eleições presidenciais de 2026 não foram acompanhadas de qualquer prova. O resultado foi oficialmente proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
O próprio PL, partido de Flávio Bolsonaro, reconheceu o resultado da eleição. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha, também declarou que não existem provas que sustentem uma acusação de fraude.
As reações das lideranças evangélicas ocorrem em meio à reorganização de partidos e grupos políticos conservadores após a eleição, mas não representam um rompimento generalizado das igrejas com a direita ou com o bolsonarismo.
Fonte: O Globo
Foto: Reprodução
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